O DVD (Quitanda/Biscoito Fino) traz a interpretação de Maria Bethânia para poemas, canções e textos que estão no livro, ilustrados com recursos de animação gráfica. Gringo Cardia assina a direção do vídeo e o projeto gráfico do livro. A obra é resultado de um projeto concebido por Bethânia em parceria com a UFMG, voltado para divulgar poesia, literatura e canção popular na escola pública.
Esse projeto começou em 2009 com a iniciativa da historiadora Heloisa Maria Murgel Starling de convidar Maria Bethânia para participar do projeto “Sentimentos do Mundo”, da UFMG. A artista criou o espetáculo “Leituras de Textos”, no qual resgatava a arte de declamar poemas. “Nesse livro, Maria Bethânia reafirma a equivalência entre a chamada ‘alta literatura’ e as canções populares, entre o culto à soberania da abordagem literária em sua inesgotabilidade de sentido e de permanência, e o nosso hábito, meio distraído de fazer da canção o complemento natural da atividade cotidiana de viver”, observa a escritora.
Enquanto a artista interpreta poemas, animações gráficas conduzem o espectador ao universo lúdico dos textos. O DVD registra o espetáculo apresentado pela cantora em Diamantina, Minas Gerais, sete clipes extras sobre os poetas e um filme com poesia escrita do tamanho do show.
Sonoridades que definem espaços e captam atmosferas... Uma hora de pura música eletrónica e ambiental. A eletrónica é acima de tudo música para a mente. Subtil, evanescente, intensamente cerebral.
Cada um de nós nasce com um artista lá dentro.
Um poeta, um escultor, um aventureiro...
um cientista, um pintor, um arqueólogo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro.
E o sonho e a distância, e o tempo e a saudade deram-nos vida, amor, problemas, mentiras e verdade; e damos por nós mesmos descobrindo que agora, se calhar, já é um pouco tarde.
E nas memórias velhas e secretas da menina morou sempre aquele sonho de um dia ser...
bailarina, actriz, modelo, princesa, muito rica; eu sei lá!
Mas os anos correram num assombro, e a vida foi injusta em qualquer jeito para a chama indelével que ainda arde.
E os filhos são bonitos no seu peito.
Pois é...
mas agora...
agora já é tarde.
E nos papéis antigos que rasgamos há sempre meia dúzia que guardamos.
São os planos da conquista do Pólo Norte que fizemos aos sete anos, escondidos no sótão uma tarde, e estiveram perdidos trinta anos.
E agora, se calhar, maldita sorte!
Por desnorte, acaso ou esquecimento, alguém já descobriu o Pólo Norte e agora...
agora pronto, agora já é tarde.
Há sempre nas gavetas escritores secretos, cientistas e doutores, desenhos e projectos construtores feitos em meninos de tudo o que sonhámos fazer quando fosse a nossa vez!
Cientistas em busca de Plutão, arqueólogos no Egipto, viajantes sempre sem destino, futebolistas de sucesso no Inter de Milão.
E o curso da vida foi traidor, e o curso da vida foi cobarde, e o ciclo do tempo completou-se, e agora...
e agora pronto, paciência, agora já é tarde...
Agora é tarde.
Emprego, casa, filhos muito queridos, algum sonhar ainda com amigos, às vezes sair, beber uns copos p'ra esquecer ou p'ra lembrar, e fazer ainda um certo alarde, talvez para esconder ou para abafar, como é já tão demasiado e tão impiedosamente tarde...
Não...
mas não, não; nunca é tarde para sonhar!
Amanhã partimos todos para Istambul, Vladivostock, Alasca, Oslo, Dakar!
Vamos à selva a Timor abraçar aquela gente e às montras de Amsterdam (que eu afinal também não sou diferente).
Chegando a Tóquio são horas de jantar, depois temos de voltar a Bombaim, passando por Macau e Calcutá, que eu encontro Portugal em todo o lado e mesmo fugindo nunca saio de mim.
E se esse marinheiro, galã, aventureiro, esse, que já não há, pois que me saiba cumprir com coerência, nos limites decentes da demência, nos limites dementes da decência; e cumpramo-nos todos, já agora, até ao fim, no que fazemos, na diferença do que formos e dissermos!
E perguntando, criando rebeldias, conferindo aquilo que acreditamos e que ainda formos capazes de sonhar!
E se aquilo, aquilo que nos dão todos os dias não for coisa que se cheire ou nos deslumbre, que pelo menos nunca abdiquemos de pensar com direito à ironia, ao sonho, ao ser diferente.
E será talvez uma forma inteligente de, afinal, nunca...
nunca, nunca ser tarde demais para viver, nunca ser tarde demais para perceber, nunca ser tarde demais para exigir, nunca ser tarde demais para ACORDAR.
Não... Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém. De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos; Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão. Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo. Quantas vezes vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca. E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando... Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca. Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos... Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus. Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus, Era êxtase, ternura, infinito langor. Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor. Ainda ontem, cada instante uma nova espera, Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite. E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro. Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite. Não, depois de te amar assim, Como um deus, como um louco, nada me bastará e se tudo tão pouco, Eu deveria morrer.
Troco-me por ti Na brasa da fogueira mal ardida renovo o fogo que perdi, acendo, ascendo, ao lume, ao leme, à vida.
E só trocado, parece, por não ser na verdade conjugo o velho verbo e sou, remido esquartejado, o retrato perfeito em que exacerbo os passos recolhidos pelo tempo andado.
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer
um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade.
Diz o meu nome, pronuncia-o, como se as sílabas te queimassem os lábios. Sopra-o com suavidade, para que o escuro apeteça, para que se desatem os teus cabelos, para que aconteça.
Porque eu cresço para ti, sou eu dentro de ti, que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno.
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido,
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci.
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência.
Porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar,
outro rumo,
outro pulsar,
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
no húmido centro da noite.
Diz o meu nome,
como se eu te fosse estranho,
como se fosse intruso,
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte,
quando suavemente
pronunciares o meu nome
Depois de estrear o álbum “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes”, lançado em 2012, Peri Pane apresenta “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes - Volume 2”, pelo selo Traquitana. Com o mesmo time do primeiro álbum, o disco conta com canções de Peri Pane e parcerias com o poeta arrudA, além da composição inédita “Uma canção”, de Alzira E e arrudA, e uma recriação de “La cumbia del mole”, dos mexicanos Lila Downs e Paul Cohen.
A produção musical é assinada por Marcelo Dworecki e Cris Scabello, integrantes da banda Bixiga 70. O disco conta ainda com a participação especial da cantora Marcia Castro, em “Certo tipo de dor” (Peri Pane e arrudA), e do compositor multiinstrumentista Meno Del Picchia, que tocou baixo acústico em “Ponte de safena” (Peri Pane) e em mais duas faixas.
O poeta arrudA faz uma intervenção na primeira faixa “O tempo é onde”, que, assim como a canção “Assim me acende”, foi musicada de um poema de seu livro “A Representação Matemática das Nuvens” (editora Patuá).
O clima intimista e minimalista e a instrumentação totalmente acústica também estão presentes no “Volume 2”, que conta com Peri Pane (voz, violão e violoncelo), Marcelo Dworecki (violão de aço e cavaquinho) e Otávio Ortega (piano e acordeon). Assim como o primeiro, o disco foi mixado por Victor Rice e masterizado por Fernando Sanches, do Estúdio El Rocha.
Como no primeiro álbum, as capas são numeradas e exclusivas, feitas uma a uma com papelão reutilizado pelo artista plástico Rafael Gentile, que usa a técnica do estêncil.
O projeto “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes – Volume 2” ganhou o prêmio estadual Proac na categoria de gravação de disco inédito de canção e circulação.
1O Tempo É Onde 2Escápula 3Só 4Uma Canção 5Certo Tipo de Dor 6Ponte de Safena 7La Cumbia del Mole 8O Sapo e o Poeta 9Espavilo 10Recônditos Amores 11Assim Me Acende
"Canções Velhas Para Embrulhar Peixes", com composições próprias de Peri Pane e parcerias com o poeta arrudA.
O álbum foi gravado em 2012 no estúdio Traquitana, com produção musical de Marcelo Dworecki, e mixado por Victor Rice. Tocam no álbum Peri Pane (voz, violão e violoncelo), Marcelo Dworecki (violão de aço e cavaquinh o) e Otávio Ortega (piano e acordeon). Alzira E canta na faixa "Saudade", e arrudA faz intervenção poética na faixa "Sambinha".
Décimo sétimo título da farta discografia de Arnaldo Antunes pós-Titãs, o álbum Já é chegou ao mercado fonográfico brasileiro em setembro de 2015, com distribuição da gravadora Sony Music. Produzido por Kassin, o disco autoral alinha 15 músicas inéditas e tem a participação de Marisa Monte - parceira de Arnaldo - na faixa Peraí, repara. Algumas músicas foram feitas pelo cantor e compositor paulistano em recente viagem à Índia. Carlinhos Brown, Cezar Mendes, Dadi Carvalho, Davi Moraes Domenico Lancellotti, Jaques Morelenbaum, Pedro Sá, Marcelo Jeneci, Stephane San Juan e Zé Miguel Wisnik são músicos que figuram na ficha técnica do disco. Antes, Aqui onde está, As estrelas sabem, As estrelas cadentes, Azul e prateado, Dança, Na fissura, Naturalmente, naturalmente, Óbitos, O meteorologista, Põe fé que já é, Saudade farta, Se você nadar e Só solidão são as músicas que compõem o repertório inédito do disco Já é com a citada Peraí, repara. A capa (foto) tem direção de arte e fotografia de Marcia Xavier. O design gráfico é de Anna Turra. (http://www.blognotasmusicais.com.br/2...)
Eu não sei pensar como é que vai ser nem adivinhar mas eu quero ver
se você me quer se ainda quer me querer bem tenho que saber se você vem as estrelas sabem
posso te ligar quando escurecer? quando te falar posso te dizer?
eu não sei me abrir mas aprenderei hei de aprender se não sei pedir implorarei as estrelas sabem
sua falta é vasta em mim paraíso é tão ruim sem você comigo aqui
as estrelas pelo céu são pedaços de papel sem o seu sorriso
já joguei, perdi e te magoei quando te feri eu me machuquei
mas eu esqueci que queria mesmo te esquecer hoje estou aqui pra não morrer as estrelas sabem
não há flores no jardim só bagaços e capim sem você comigo aqui
as estrelas pelo chão são pedaços de carvão sem o seu sorriso
eu não sei chorar só me comover quase a me afogar sem você saber
eu só sei te amar me entregar ao que acontecer e ao te abraçar estremecer as estrelas sabem
Herberto Helder, por muitos considerado o maior poeta português vivo, morreu ontem em Cascais. Tinha 84 anos. Nascido no Funchal, Herberto veio adolescente para Lisboa. Publicou os primeiros poemas em 1952, e o primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Em 1973, com oito livros publicados, entre eles Os Passos em Volta, obra-prima da prosa em língua portuguesa, ainda a crítica dominante não alinhava no unanimismo dos últimos vinte anos. Os Poemas Completos foram publicados em Outubro de 2014 pela Porto Editora. Herberto recusou todos os prémios que lhe atribuíram, incluindo o Prémio Pessoa.
Avesso à exposição pública, Herberto teve na vida várias profissões e ocupações. Foi empregado da Caixa Geral de Depósitos, angariador de publicidade para o Anuário Comercial português, funcionário do Serviço Meteorológico Nacional (na Madeira), delegado de propaganda médica entre 1955-58, guia de marinheiros em Amesterdão, encarregado no serviço de Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, redactor da Emissora Nacional, publicista, director literário da Estampa, colaborador da revista angolana Notícia, revisor tipográfico da Arcádia, redactor de notícias na RDP em 1974, tradutor, etc. Nos anos 1950 fez parte das tertúlias surrealistas do Café Gelo, nos anos 1960 viajou por vários países europeus e no início dos anos 1970 passou uma temporada em Angola.
Como digo num ensaio que publiquei em 2009, e está compilado emAula de Poesia — Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios. [...] Afinal, se Herberto fosse um poeta igual a tantos que vicejam nos departamentos de literatura, Novalis refulgiria intacto nos interstícios da voz. [...] Lembrar, muito a propósito, o verso famoso: «Não posso escrever mais alto». A minha geração cresceu com Herberto, repetindo versos irrepetíveis...
Agora vou reler Photomaton & Voz (1979), prosa de primeiríssima água.
Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.
Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»
não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,
recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão
a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,
que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:
- Para dizer a verdade,
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação
(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção
de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,
até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...
Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional Casa da Moeda