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sábado, 30 de novembro de 2019

Chico Buarque | Sangue Latino


Chico Buarque

One of Brazil's most renowned songwriters, an iconoclastic figure in post-bossa nova Brazilian music.
Read Full Biography





O cantor e compositor fala sobre a passagem do tempo,
a Revolução Cubana, sua relação com a América Latina
e com a família.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Caderno de Poesias (1) - Maria Bethânia

O DVD (Quitanda/Biscoito Fino) traz a interpretação de Maria Bethânia para poemas, canções e textos que estão no livro, ilustrados com recursos de animação gráfica. Gringo Cardia assina a direção do vídeo e o projeto gráfico do livro. A obra é resultado de um projeto concebido por Bethânia em parceria com a UFMG, voltado para divulgar poesia, literatura e canção popular na escola pública.
Esse projeto começou em 2009 com a iniciativa da historiadora Heloisa Maria Murgel Starling de convidar Maria Bethânia para participar do projeto “Sentimentos do Mundo”, da UFMG. A artista criou o espetáculo “Leituras de Textos”, no qual resgatava a arte de declamar poemas. “Nesse livro, Maria Bethânia reafirma a equivalência entre a chamada ‘alta literatura’ e as canções populares, entre o culto à soberania da abordagem literária em sua inesgotabilidade de sentido e de permanência, e o nosso hábito, meio distraído de fazer da canção o complemento natural da atividade cotidiana de viver”, observa a escritora.
Enquanto a artista interpreta poemas, animações gráficas conduzem o espectador ao universo lúdico dos textos. O DVD registra o espetáculo apresentado pela cantora em Diamantina, Minas Gerais, sete clipes extras sobre os poetas e um filme com poesia escrita do tamanho do show.



quarta-feira, 20 de março de 2019

Solidão

Sonoridades que definem espaços e captam atmosferas...
Uma hora de pura música eletrónica e ambiental.
A eletrónica é acima de tudo música para a mente.  

Subtil, evanescente, intensamente cerebral. 







Argonauta
com Jorge Carnaxide
RTP Antena 2


domingo, 20 de maio de 2018

Pedro Barroso / Agora nunca é tarde








Cada um de nós nasce com um artista lá dentro. Um poeta, um escultor, um aventureiro... um cientista, um pintor, um arqueólogo, um estilista, um astronauta, um cantor, um marinheiro.
E o sonho e a distância, e o tempo e a saudade deram-nos vida, amor, problemas, mentiras e verdade; e damos por nós mesmos descobrindo que agora, se calhar, já é um pouco tarde. E nas memórias velhas e secretas da menina morou sempre aquele sonho de um dia ser... bailarina, actriz, modelo, princesa, muito rica; eu sei lá! Mas os anos correram num assombro, e a vida foi injusta em qualquer jeito para a chama indelével que ainda arde. E os filhos são bonitos no seu peito. Pois é... mas agora... agora já é tarde. E nos papéis antigos que rasgamos há sempre meia dúzia que guardamos. São os planos da conquista do Pólo Norte que fizemos aos sete anos, escondidos no sótão uma tarde, e estiveram perdidos trinta anos. E agora, se calhar, maldita sorte! Por desnorte, acaso ou esquecimento, alguém já descobriu o Pólo Norte e agora... agora pronto, agora já é tarde. Há sempre nas gavetas escritores secretos, cientistas e doutores, desenhos e projectos construtores feitos em meninos de tudo o que sonhámos fazer quando fosse a nossa vez! Cientistas em busca de Plutão, arqueólogos no Egipto, viajantes sempre sem destino, futebolistas de sucesso no Inter de Milão. E o curso da vida foi traidor, e o curso da vida foi cobarde, e o ciclo do tempo completou-se, e agora... e agora pronto, paciência, agora já é tarde... Agora é tarde. Emprego, casa, filhos muito queridos, algum sonhar ainda com amigos, às vezes sair, beber uns copos p'ra esquecer ou p'ra lembrar, e fazer ainda um certo alarde, talvez para esconder ou para abafar, como é já tão demasiado e tão impiedosamente tarde... Não... mas não, não; nunca é tarde para sonhar! Amanhã partimos todos para Istambul, Vladivostock, Alasca, Oslo, Dakar! Vamos à selva a Timor abraçar aquela gente e às montras de Amsterdam (que eu afinal também não sou diferente). Chegando a Tóquio são horas de jantar, depois temos de voltar a Bombaim, passando por Macau e Calcutá, que eu encontro Portugal em todo o lado e mesmo fugindo nunca saio de mim. E se esse marinheiro, galã, aventureiro, esse, que já não há, pois que me saiba cumprir com coerência, nos limites decentes da demência, nos limites dementes da decência; e cumpramo-nos todos, já agora, até ao fim, no que fazemos, na diferença do que formos e dissermos! E perguntando, criando rebeldias, conferindo aquilo que acreditamos e que ainda formos capazes de sonhar! E se aquilo, aquilo que nos dão todos os dias não for coisa que se cheire ou nos deslumbre, que pelo menos nunca abdiquemos de pensar com direito à ironia, ao sonho, ao ser diferente. E será talvez uma forma inteligente de, afinal, nunca... nunca, nunca ser tarde demais para viver, nunca ser tarde demais para perceber, nunca ser tarde demais para exigir, nunca ser tarde demais para ACORDAR.






quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ao Crepúsculo
























Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza 
e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo
em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era êxtase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo
olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.


Pablo Neruda



sábado, 30 de setembro de 2017

Troco-me por ti

























Troco-me por ti 
Na brasa da fogueira mal ardida 
renovo o fogo que perdi, 
acendo, ascendo, ao lume, ao leme, à vida. 

E só trocado, parece, por não ser 
na verdade conjugo o velho verbo 
e sou, remido esquartejado, 
o retrato perfeito em que exacerbo 
os passos recolhidos pelo tempo andado. 



Pedro Tamen, in “Rua de Nenhures” 




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

É Isto o Amor

























Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que 
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a 
manhã da minha noite. É verdade que te podia 
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas 
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos 
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me 
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, 
até sermos um apenas no amor que nos une, 
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: 
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua 
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo 
esse que mal corria quando por ele passámos, 
subindo a margem em que descobri o sentido 
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo 
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, 
de chegar antes de ti para te ver chegar: com 
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água 
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: 
a primavera luminosa da minha expectativa, 
a mais certa certeza de que gosto de ti, como 
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. 




Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês' 


 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Pergunta-me






















Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo 
se acendes ainda 
o minuto de cinza 
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue 

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria 
e o tropel de mil cavalos 

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive 
junto das pontes enevoadas 
e se eras tu 
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu 
que reunias pedaços do meu poema 
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente 

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa 
uma tolice 
um mistério indecifrável 
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder 
saibas o que te quero dizer 




Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho' 




segunda-feira, 25 de setembro de 2017

quando a ternura for a única regra da manhã























um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da 
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso 
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade. 

José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas' 



domingo, 24 de setembro de 2017

Diz o meu nome

















Diz o meu nome,
pronuncia-o,
como se as sílabas
te queimassem os lábios.
Sopra-o com suavidade,
para que o escuro apeteça,
para que se desatem os teus cabelos,
para que aconteça.

Porque eu cresço para ti,
sou eu dentro de ti,
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno.
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido,
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci.
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência.
Porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar,
outro rumo,
outro pulsar,
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
no húmido centro da noite.
Diz o meu nome,
como se eu te fosse estranho,
como se fosse intruso,
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte,
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Mia Couto

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Canções Velhas Para Embrulhar Peixes | Volume 2

Depois de estrear o álbum “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes”, lançado em 2012, Peri Pane apresenta “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes - Volume 2”, pelo selo Traquitana. Com o mesmo time do primeiro álbum, o disco conta com canções de Peri Pane e parcerias com o poeta arrudA, além da composição inédita “Uma canção”, de Alzira E e arrudA, e uma recriação de “La cumbia del mole”, dos mexicanos Lila Downs e Paul Cohen. 

A produção musical é assinada por Marcelo Dworecki e Cris Scabello, integrantes da banda Bixiga 70. O disco conta ainda com a participação especial da cantora Marcia Castro, em “Certo tipo de dor” (Peri Pane e arrudA), e do compositor multiinstrumentista Meno Del Picchia, que tocou baixo acústico em “Ponte de safena” (Peri Pane) e em mais duas faixas.




O poeta arrudA faz uma intervenção na primeira faixa “O tempo é onde”, que, assim como a canção “Assim me acende”, foi musicada de um poema de seu livro “A Representação Matemática das Nuvens” (editora Patuá). 

O clima intimista e minimalista e a instrumentação totalmente acústica também estão presentes no “Volume 2”, que conta com Peri Pane (voz, violão e violoncelo), Marcelo Dworecki (violão de aço e cavaquinho) e Otávio Ortega (piano e acordeon). Assim como o primeiro, o disco foi mixado por Victor Rice e masterizado por Fernando Sanches, do Estúdio El Rocha. 

Como no primeiro álbum, as capas são numeradas e exclusivas, feitas uma a uma com papelão reutilizado pelo artista plástico Rafael Gentile, que usa a técnica do estêncil. 

O projeto “Canções Velhas Para Embrulhar Peixes – Volume 2” ganhou o prêmio estadual Proac na categoria de gravação de disco inédito de canção e circulação.





1 O Tempo É Onde
2 Escápula
3 
4 Uma Canção
5 Certo Tipo de Dor
6 Ponte de Safena
7 La Cumbia del Mole
8 O Sapo e o Poeta
9 Espavilo
10 Recônditos Amores
11 Assim Me Acende


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Canções Velhas Para Embrulhar Peixes


"Canções Velhas Para Embrulhar Peixes", com composições próprias de Peri Pane e parcerias com o poeta arrudA.

O álbum foi gravado em 2012 no estúdio Traquitana, com produção musical de Marcelo Dworecki, e mixado por Victor Rice. 

Tocam no álbum Peri Pane (voz, violão e violoncelo), Marcelo Dworecki (violão de aço e cavaquinh o) e Otávio Ortega (piano e acordeon). Alzira E canta na faixa "Saudade", e arrudA faz intervenção poética na faixa "Sambinha".





sábado, 21 de novembro de 2015

Viver





Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente.

Agostinho da Silva, Diário de Alcestes

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Arnaldo Antunes | As Estrelas Sabem

Décimo sétimo título da farta discografia de Arnaldo Antunes pós-Titãs, o álbum Já é chegou ao mercado fonográfico brasileiro em setembro de 2015, com distribuição da gravadora Sony Music.

Produzido por Kassin, o disco autoral alinha 15 músicas inéditas e tem a participação de Marisa Monte - parceira de Arnaldo - na faixa Peraí, repara. Algumas músicas foram feitas pelo cantor e compositor paulistano em recente viagem à Índia. 

Carlinhos Brown, Cezar Mendes, Dadi Carvalho, Davi Moraes Domenico Lancellotti, Jaques Morelenbaum, Pedro Sá, Marcelo Jeneci, Stephane San Juan e Zé Miguel Wisnik são músicos que figuram na ficha técnica do disco. Antes, Aqui onde está, 

As estrelas sabem, As estrelas cadentes, Azul e prateado, Dança, Na fissura, Naturalmente, naturalmente, Óbitos, O meteorologista, Põe fé que já é, Saudade farta, Se você nadar e Só solidão são as músicas que compõem o repertório inédito do disco Já é com a citada Peraí, repara. A capa (foto) tem direção de arte e fotografia de Marcia Xavier. O design gráfico é de Anna Turra.
 (http://www.blognotasmusicais.com.br/2...)




Eu não sei pensar
como é que vai ser
nem adivinhar
mas eu quero ver

se você me quer
se ainda quer me querer bem
tenho que saber se você vem
as estrelas sabem

posso te ligar
quando escurecer?
quando te falar
posso te dizer?

eu não sei me abrir
mas aprenderei hei de aprender
se não sei pedir implorarei
as estrelas sabem

sua falta é vasta em mim
paraíso é tão ruim
sem você comigo aqui

as estrelas pelo céu
são pedaços de papel
sem o seu sorriso

já joguei, perdi
e te magoei
quando te feri
eu me machuquei

mas eu esqueci
que queria mesmo te esquecer
hoje estou aqui pra não morrer
as estrelas sabem

não há flores no jardim
só bagaços e capim
sem você comigo aqui

as estrelas pelo chão
são pedaços de carvão
sem o seu sorriso

eu não sei chorar
só me comover
quase a me afogar
sem você saber

eu só sei te amar
me entregar ao que acontecer
e ao te abraçar estremecer
as estrelas sabem



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades




E afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía. 


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos" 


terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER 1930-2015






Herberto Helder, por muitos considerado o maior poeta português vivo, morreu ontem em Cascais. Tinha 84 anos. Nascido no Funchal, Herberto veio adolescente para Lisboa. Publicou os primeiros poemas em 1952, e o primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Em 1973, com oito livros publicados, entre eles Os Passos em Volta, obra-prima da prosa em língua portuguesa, ainda a crítica dominante não alinhava no unanimismo dos últimos vinte anos. Os Poemas Completos foram publicados em Outubro de 2014 pela Porto Editora. Herberto recusou todos os prémios que lhe atribuíram, incluindo o Prémio Pessoa.

Avesso à exposição pública, Herberto teve na vida várias profissões e ocupações. Foi empregado da Caixa Geral de Depósitos, angariador de publicidade para o Anuário Comercial português, funcionário do Serviço Meteorológico Nacional (na Madeira), delegado de propaganda médica entre 1955-58, guia de marinheiros em Amesterdão, encarregado no serviço de Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, redactor da Emissora Nacional, publicista, director literário da Estampa, colaborador da revista angolana Notícia, revisor tipográfico da Arcádia, redactor de notícias na RDP em 1974, tradutor, etc. Nos anos 1950 fez parte das tertúlias surrealistas do Café Gelo, nos anos 1960 viajou por vários países europeus e no início dos anos 1970 passou uma temporada em Angola.

Como digo num ensaio que publiquei em 2009, e está compilado emAula de Poesia — Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios. [...] Afinal, se Herberto fosse um poeta igual a tantos que vicejam nos departamentos de literatura, Novalis refulgiria intacto nos interstícios da voz. [...] Lembrar, muito a propósito, o verso famoso: «Não posso escrever mais alto». A minha geração cresceu com Herberto, repetindo versos irrepetíveis...

Agora vou reler Photomaton & Voz (1979), prosa de primeiríssima água.

 Eduardo Pitta  | Blog Da Literatura

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O quotidiano "não" | Alexandre O´Neill




Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos 
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão, 

recebe modestamente
a corriqueira fracção 
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

- Para dizer a verdade,
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981
Biblioteca de Autores Portugueses
Imprensa Nacional  Casa da Moeda