terça-feira, 4 de junho de 2013

Leituras

A Zona Euro está a mudar

por Mário Soares / Diário de Notícias

 

1- A Zona Euro parece estar a mudar mesmo em relação à União Europeia. O eixo franco-alemão está a voltar a impor-se. A Alemanha começa a perceber que as políticas de austeridade que impôs aos Estados, considerados periféricos e preguiçosos (a Grécia, a Irlanda e Portugal), que nunca o foram - tomara a Alemanha ter um palmarés histórico como o desses Estados, e aqueles que estão também a ser tocados gravemente pela crise, como a Espanha, a Itália, Chipre, a Holanda, e ao que parece também a Suécia e a França -, têm-se revelado uma desgraça para a própria Alemanha. Porquê? Porque deixaram de comprar as suas exportações, como era inevitável. A Alemanha começa a estar em decadência e a chanceler Merkel precisava encontrar um bode expiatório para explicar isso. Escolheu um, que tanto a seguiu, mas que muda conforme os ventos que sopram: o nosso compatriota Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia. Em política a quem muda muito de opiniões, segundo os ventos, mais tarde ou mais cedo acontece-lhe isto. Então com esta Senhora Merkel, ex-comunista militante da ex-Alemanha de Leste, que é, implacável, consoante os seus interesses político pessoais. Pobre Durão Barroso, que muda com os ventos que sopram - é verdade - mas desta vez não merecia ser tão mal tratado...
O importante é que a chanceler Merkel está à procura de, pelo menos, atenuar a austeridade e lutar por um governo da Zona Euro, como François Hollande lhe propôs. Quer melhor economia e pretende mais emprego, para o tornar possível. E pensa que - cito - "a Zona Euro não tem escolha e tem de se comparar aos melhores do mundo" (vide Le Monde, de 1 de junho de 2013).
Além disso, também enviou uns nazis - que voltavam a fazer estragos - para a cadeia. Já não era sem tempo, porque deviam estar lá há muito.
Por outro lado, começou a fazer uma distinção entre a Zona Euro, a importante, e os restantes Estados da União Europeia. A Zona Euro vai passar a ser a joia da coroa, dando agora, a chanceler, muito pouca importância aos outros Estados membros da União Europeia, a começar pelo Reino Unido, que sempre viu a Europa apenas como um espaço de livre câmbio, o que a Zona Euro nunca, evidentemente, quis ser.
Em 30 de maio último, veja-se como tudo está a mudar, a Comissão Europeia decidiu levar o Reino Unido ao Tribunal de Justiça Europeu pelas suas regras de má segurança social. Imagine-se o que isso representa. A Europa da Zona Euro está a mudar rapidamente. O nosso ministro das Finanças, Vítor Gaspar, tão fanático como é, em termos de ideologia neoliberal, que se acautele. E note-se que não estou a dizer porque tenha vontade que assim aconteça, mas tão só, pelo contrário, para que não suceda, como patriota que sou...
A Zona Euro está, pela força das coisas, a mudar aceleradamente. E Portugal, como é óbvio, não pode deixar de acompanhar esta evolução.
2 - Portugal também não
No dia 30 de maio, à noite, na Aula Magna da Universidade de Lisboa, participei, com o magnífico reitor, professor doutor Sampaio da Nóvoa, e uma série de promotores como os representantes dos partidos da Esquerda Parlamentar: o PS, o PCP, o Bloco de Esquerda e um membro ilustre do PSD, Pacheco Pereira, na linha política que foi a do seu fundador, Sá Carneiro (que sempre considerou - e bem - o PSD como um partido de Esquerda que só não entrou na Internacional Socialista porque o PS já lá estava), os dirigentes das duas Centrais Sindicais, CGTP e UGT, num encontro simbólico intitulado "Libertar Portugal da Austeridade".
Apesar de haver greve de transportes, o encontro encheu completamente a Aula Magna, com mais de dois mil e trezentos presentes - isto é, com uma assistência entusiástica, com muitas personalidades conhecidas, militares ilustres, para além do presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, eclesiásticos, como Frei Bento Domingues, líderes de partidos sem representação parlamentar, economistas, sociólogos, professores, advogados, médicos e sobretudo muito Povo e o que resta da classe média...
O mais interessante é que não houve um grito que não fosse para sublinhar com imenso entusiasmo tudo o que se disse em favor da liberdade, da democracia e do Estado social. Que o atual Governo procura destruir, vendendo aos poucos as nossas empresas, o nosso património e sobretudo ignorando as portuguesas e os portugueses e empobrecendo o País.
Não admira assim que a esmagadora maioria dos portugueses odeiem o Governo, reclamem a sua demissão, vaiem os ministros quando se atrevem a sair à rua e gritem contra o Senhor Presidente da República quando diz que este Governo é legítimo. Haverá em democracia governos legítimos contra a vontade popular? Só em democracias que estão a deixar de o ser, como, infelizmente, está a acontecer com a nossa.
Note-se que o Governo tem o plano de ignorar a Constituição da República e pela segunda vez apresentou com arreganho ao Tribunal Constitucional dois orçamentos anticonstitucionais.
Há dias, o Senhor Primeiro-Ministro demitiu dois administradores sem consultar ninguém. Porque se não demite ele próprio e os seus ministros, quando há dias foi à sua própria terra, Vila Real, onde foi vaiado? É demais! Demita-se enquanto há tempo. Sabe-se que terá, por enquanto, a proteção presidencial, mas seria melhor, para todos, que o fizesse, antes que se tornem perigosos os tempos em mudança e não venha a ser a própria troika a fazê-lo. Seria a máxima humilhação! Como se diz nas passagens de nível dos caminhos-de-ferro (que o ministro da Economia, a propósito do TGV, quer de novo que vá até Madrid): "pare, escute e olhe" e eu acrescento: reflita, antes que seja tarde.
3 - A política e os Partidos
Por múltiplas razões, que um dia terão de ser analisadas a sério, a política, os políticos e os partidos, independentemente das diferenças, entre eles, não merecem do Povo boa reputação. Em grande parte porque os políticos se misturaram com os negócios e em alguns casos utilizaram a política para subir na vida e os partidos, sobretudo os do arco do poder, para lá chegar, fizeram o mesmo.
O patriotismo e o verdadeiro amor à Pátria, desapareceram entre boa parte dos militantes dos partidos, sobretudo entre os do chamado arco do poder com, felizmente, bastante exceções. Mas não são as exceções que contam para o Povo. São os casos óbvios da mistura entre políticos e negociantes, que são conhecidos, alguns até chegaram a ser arguidos mas não obstante ficaram impunes, porque a nossa Justiça se tornou não só lenta, como em alguns casos - bem conhecidos - fez vista grossa...
Conclusão: é necessário que os partidos mudem, se transformem, modernizem e que os seus dirigentes e militantes não caiam na tentação de ganhar dinheiro, por via dos negócios fáceis e ilícitos. Por seu lado, a Justiça tem de ser rápida - sobretudo nos processos em que os negócios se confundem com as políticas - e os magistrados e membros do Ministério Público percam a tentação de se exibir nos órgãos de comunicação social, porque então aí perdem, ao contrário do que alguns julgam, o prestígio e o respeito que lhes são devidos.
É claro que num regime pluripartidário, como o nosso, é difícil que os partidos sejam isentos da banca e dos negócios. Mas no estado a que os partidos chegaram, sobretudo os do arco do poder, repito, é necessário que o façam para reganhar o prestígio perdido, pelo Povo e pela gente honrada, que há ainda - e muita - felizmente.
Para tanto é preciso que os partidos - sobretudo os seus dirigentes sejam impolutos, como ainda há muitos, felizmente. A política é uma atividade muito nobre e importante que tem de ser prestigiada pelos cidadãos, para ser eficaz. Mas para isso tem de ser reconhecida como tal e estar ao serviço do Povo. No entanto, com o atual Governo, é impossível. Há que mudar rapidamente - não só em Portugal, mas em toda a Zona Euro - como tenho a esperança que aconteça. Por isso, me permito escrever estas linhas, com toda a isenção.
4- As catástrofes naturais
Curiosamente têm vindo a ocorrer quase por todos os continentes neste ano de 2013. Precisamente quando se tem esquecido o problema da defesa do ambiente e, desde a sessão que houve na Dinamarca, a comunicação social por toda a parte deixou de se ocupar do problema, que está a tornar-se dramático nos diversos continentes, talvez como nunca. Porquê? Porque a crise financeira e económica, que tem vindo a ser também social, política e até ética ocupa todo o espaço da comunicação social estrangeira e portuguesa?
E, no entanto, se há problema que deve preocupar as pessoas conscientes de todos os continentes - porque afeta todos os humanos, mulheres e homens - é a sobrevivência do nosso planeta como um todo.
É preciso por isso lutar de novo em todos os continentes pela problemática ambiental, na terra e nos Oceanos, como nos ensinam, sem que sejam ouvidos os cientistas mais respeitados.
Perante a urgência deste magno problema, a crise financeira e económica - mas também política, social e ética - não conta nada. O dinheiro para as pessoas que o não têm e estão desesperadas, com fome, como há pela primeira vez na Europa desde o fim da II Guerra Mundial. Não conta seguramente muito para os ricos - como acontece com o nosso atual Governo, que tem sempre mostrado à saciedade que não são as pessoas que contam mas tão só o dinheiro.
Mas o ambiente devia contar - e muito - porque interessa a todos os humanos ricos e pobres. Tem um Ministério do Ambiente junto aliás a alguns outros. Mas será que tem feito alguma coisa que se veja ou oiça em defesa do ambiente? Que eu saiba nada. Nem quanto aos oceanos, sendo nós uma zona marítima das maiores da Europa, de que se fala muito, pelas suas riquezas submarinas, mas que se faça algo de significativo, que eu saiba, nada. A não ser as universidades, como a dos Açores e algumas outras no Continente, que se ocupam dos oceanos, mas às quais o Governo não dá suficiente dinheiro, que tão necessário lhes é.
Assim vamos, como se ensinava no tempo da Ditadura: "cantando e rindo." Sem fazer nada em defesa do ambiente, tirando as exceções dos que continuam a trabalhar, em consciência, sem qualquer ajuda do Governo...









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