segunda-feira, 10 de junho de 2013

Leituras


Um piloto não se suicida na aterragem

Ferreira Fernandes / Diário de Notícias



Nada como os poetas. Aproveito o dia dos portugueses para lembrar uma definição justa do coletivo: "Aqui ao leme sou mais do que eu..." E reparem que o homem disse-o depois de tremer três vezes, o que deixa supor que as condições eram difíceis. Então, prossigamos com pessoas, mesmo em situações adversas, que abdicam dos seus direitos porque os outros, o coletivo, têm prioridade. Um piloto não se suicida na aterragem. Um professor não faz greve em dia de exames. Um motorista não prossegue a viagem sem saber se o acidente alheio precisa de ajuda. Um professor não faz greve em dia de exames. Um transeunte, apesar de apressado, não deixa um garoto de três anos sozinho num passeio. Um professor não faz greve em dia de exames. Woodie Allen não finge ler o jornal quando uma velhinha é assaltada na carruagem do metropolitano. Um professor não faz greve em dia de exames. Um vizinho, apesar de a final de futebol estar renhida na TV, não deixa de acudir aos gritos da mulher batida na porta ao lado. Um professor não faz greve em dia de exames. Um cirurgião não pousa o bisturi para ir fumar um cigarro lá fora.... E assim por diante. E a razão, para todos os casos, é sempre a mesma: porque sim. Pode retorquir-se que em Bananas, Woody Allen lia mesmo o jornal quando uma velhinha era agredida. Mas, aí, ele fazia de conta e não era uma pessoa séria. Nos outros casos, para as pessoas sérias, a resposta é única: porque sim.






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