terça-feira, 11 de setembro de 2012

O inexistente


Vega9000 | Blog Aspirina B





O que o governo se prepara para fazer com a TSU, mais do que tudo o que já tem feito até agora, do “ir além da Troika” que nos conduziu aos resultados desastrosos que estão à vista, entra já no domínio da engenharia social pura, do experimentalismo sobre uma população vulnerável, do testar de teorias académicas em ratinhos de laboratório, na certeira expressão do João Pinto e Castro. É talvez a medida mais grave que foi tomada até agora, já que propõe uma hipótese teórica e fantasiosa, incompleta, mal pensada, mal preparada e que vai afectar o equilíbrio do país nas próximas décadas como um facto consumado, algo que se apresenta de surpresa numa breve e atabalhoada comunicação. Confrontado com o falhanço da sua governação, governo e troika resolveram fazer um double-down da aposta para ver se desta vez é que é. Os americanos chamam a isto um “Hail-Mary pass”, uma jogada improvável nascida do desespero. Acontece que nesta jogada, nesta aposta muito, muito arriscada, as fichas de casino somos nós.

Desde a comunicação na última sexta-feira que um país completamente apanhado de surpresa entrou num debate (por assim dizer) como já não via há muito tempo, parecendo despertar do torpor do último ano. É uma questão que, por uma vez, uniu todos os sectores da sociedade na discussão furiosa e na rejeição quase unânime. Todas as forças vivas da sociedade, de constitucionalistas a sindicatos, de associações empresariais às pessoas na rua, todos têm alguma coisa a dizer, a criticar, a perguntar, a contribuir, numa dinâmica que tão depressa não se deverá esgotar.

E perante uma situação desta dimensão e gravidade, que faz António José Seguro, líder do principal partido da oposição? Aquilo que faz melhor: desaparece num passe mágico de irrelevância.



Agora, para ser justo, o homem não esteve propriamente calado desde aí. No Sábado, apareceu satisfeito no programa do Herman José a afirmar que “na política as palavras estão completamente gastas”, e no Domingo abordou o assunto num discurso de encerramento da Universidade de verão, proferido a meio da tarde. Repito, a meio da tarde (estava marcada a hora, não era? e alterar seria uma desconsideração). E já na Sexta, um Zorrinho a esforçar-se ao máximo para parecer zangado afirmou que as medidas “ultrapassam todos o limites”. Descontando obviamente o Herman, temos portanto duas intervenções preparadas. Duas. Onde a única coisa que se tira como conclusão certa é que o PS está muito, muito zangado e desapontado, provavelmente o suficiente para votar contra o próximo OE. Lamento, mas não chega. Nem sequer está perto de não chegar. Vamos lá ver: o líder que por ocasião de umas bocas do Marcelo Rebelo de Sousa marcou imediatamente uma entrevista televisiva para rebater tão vis “atentados à honra” não acha que um tema tão grave merece, no mínimo, o mesmo tratamento? Uma (ou duas, ou três) entrevista num telejornal em directo em prime-time? Uma palavra às “pessoas” que “estão primeiro”?
Temos pois a insólita situação do principal partido da oposição em que o líder não aproveita a visibilidade natural da posição para pelo menos tentar liderar o debate numa questão desta gravidade. Um líder que não lidera, apenas aparece como os restantes. E como a natureza abomina o vácuo, a oposição e discussões públicas têm sido feitas pelas forças vivas do PS, desde deputados a antigos líderes a pressupostos futuros candidatos a líder. Figuras que, com todo o respeito que me merecem, deveriam estar a secundar e a complementar as palavras do líder, não a fazer o debate por ele.
Como se isto não fosse por si suficiente, há também a questão de como tentar impedir esta experiência irresponsável, ou pelo menos tentar minorar os efeitos. E aqui a situação é ainda mais grave, porque vamos ser realistas: ou a pressão da opinião pública é de tal maneira avassaladora que o governo recua, o que me parece improvável dado que, 1. são medidas acordadas com (e provavelmente exigidas por) a Troika e, 2. Passos Coelho é suficientemente louco para ignorar todos os avisos pensando que está a ser “determinado”, ou então as medidas são chumbadas pelo Tribunal Constitucional, seja a pedido do presidente (certo…) ou a pedido dos deputados. Um previsível “chumbo” do PS ao orçamento de 2013 dá para muita discussão politica mas tem um efeito prático de, tudo somado, zero.
Ora, sendo que estas medidas foram apresentadas como uma consequência directa de um pedido de fiscalização ao TC a que Seguro se opôs frontalmente, temos pois duas conclusões a tirar. Primeiro, é agora claro que na principal medida de oposição no ano passado, a única que teve influência directa nos destinos do país, António José Seguro foi irrelevante, para não dizer pior. Segundo, e em seguimento disso, na única acção que poderá travar a implementação da “experiência”, António José Seguro colocou-se na posição de irrelevante, como se prova pela ausência deste argumento nas declarações “oficiais” produzidas até agora. É pois um líder coxo, dependente de outros a quem se opôs para exigirem ao PR o pedido de fiscalização ou, em caso negativo, avançarem eles mesmos. Ou então perde a face e a pouca autoridade moral que lhe resta. “Patético” é uma expressão suave para isto.
Isto, claro, para além da inexistente defesa do governo anterior, o que permitiu solidificar, na opinião pública, a ideia da culpa absoluta do PS na bancarrota e respectivo MoU. Estão zangados com o governo agora, sim, mas a ideia de que são uns incompetentes que não conseguem corrigir o desastre do governo anterior é fraco consolo. E muito perigoso para um PS vulnerável, por pura inépcia política, a argumentos tipo “querem voltar a quem nos faliu?”
Quando Seguro concorreu a Secretário-geral, escrevi aqui que sob sua orientação o PS iria passar por uma cura de sono. Não me enganei, infelizmente. Mas com o governo a revelar um extremismo nunca visto, a Europa finalmente a mexer e a avançar para outro patamar da UE, e o risco, a meu ver real, da coligação ruir e precipitar eleições, está na altura de acordar. O que não faltam felizmente no partido são pessoas capazes de o liderar como merece, como os cidadãos merecem. Está talvez na altura de aparecerem.

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