
A presença de Amado na Universidade de Verão do PSD provocou a reacção de duas figuras socialistas peculiares para a reflexão do que é a esquerda tribal: Ana Gomes e Alegre. A senhora, no seu registo emporcalhado, entrou em modo de fulanização e sarcasmo. Alegre, no seu registo airado, colou Amado ao neoliberalismo.
Como são valentes e rápidos estes socialistas arrumados à esquerda da esquerda, mas só quando toca a atacar o PS. Já a atacar esta decadente direita partidária são uma nulidade absoluta. De Ana Gomes, ninguém se lembra de qualquer posição a respeito da estratégia de assassinato de carácter contra Sócrates et alia, nem sequer quando se chegou ao ponto de Belém lançar uma inaudita conspiração mediática em cima das eleições de 2009. Provavelmente, terá ficado consolada com a tortura infligida ao malandro e terá celebrado a perda da maioria e a sua demissão. De Alegre, fica o seu contributo decisivo para a reeleição de Cavaco, a mais sinistra e ultrajante figura da história da democracia portuguesa.
Amado foi a um evento do PSD dizer o mesmo que dizia como governante e diz como militante socialista: que os desafios do tempo pedem consenso partidário para alcançar certos objectivos fulcrais para o interesse nacional. Estamos perante uma evidência. É evidente que o interesse nacional saiu prejudicado pela falta de consenso em relação à aprovação do PEC 4, como milhões estão agora a sentir no corpinho e uns quantos começam a perceber devagar e a contragosto. É evidente que entregar o poder a um grupo de ignorantes e vendilhões radicais, este Governo da dupla Passos-Relvas, é desastroso por comparação com o Executivo de Sócrates e o que este conseguiu fazer com as contas públicas e as políticas sociais, inclusive apesar da hecatombe económica internacional desde 2008 e da impotência europeia na protecção aos países atacados pelos mercados desde 2010. Por consequência, por ser coerente, Amado está muito bem ao repetir a mesma lógica. Lógica essa onde a RTP não justificaria uma clivagem entre PS e Governo que impeça a união no essencial. Claro que se pode discordar da sua opinião por milhentas e excelentes razões, mas castigá-lo e apelar à sua ostracização dentro do PS, como fizeram Ana Gomes e Alegre, exibe a disfuncionalidade cívica da esquerda narcísica e moralista.
Contam-se pelos dedos de meia mão as figuras públicas que defendem soluções ao centro. E é preciso ser ingénuo para o fazer, tão verrinosas e inevitáveis as agressões de que serão alvo vindas de todos os quadrantes partidários. Só que existem dois tipo de ingenuidade, a negativa e a positiva. A negativa é aquela de Ana Gomes e Alegre, os quais ingenuamente se agarram à ferrugenta armadura ideológica acreditando que ainda assustam os adversários e acabam a perseguir os seus na retaguarda das batalhas. Esta é a ingenuidade que reduz o mundo ao simplismo, que se barrica no sectarismo. A positiva é esta de Amado, nascida da tarimba e da responsabilidade. Esta é a ingenuidade que assume a complexidade do mundo, que ousa advogar a inteligência, que aponta para a criatividade.
Onde Amado se estatelou ao comprido na Universidade de Verão do PSD foi no silenciamento da temática da perseguição criminal aos políticos socialistas que a JSD e as figuras gradas do PSD têm alimentado por palavras e actos. Nessa área, sejam de direita ou de esquerda, não há consenso algum que justifique o compromisso com pulhices e com pulhas. E ao seu lado e à sua frente, como se viu na pergunta à Cândida Almeida a respeito de Sócrates, estavam alguns. Que Ana Gomes e Alegre aceitem esse tratamento dado a camaradas seus, é algo que já não choca. Que Amado desperdice essa oportunidade de afrontar olhos nos olhos quem degrada o regime, fica como um lembrete de como a cidade continua com os seus pilares ao abandono.
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