sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O sonho de uma Universidade de Verão

Valupi | Blog Aspirina B




A Universidade de Verão do PS faz parte do puzzle que, se algum dia for completo, permitirá descobrir o que levou Seguro a boicotar o PS na sua tentativa de derrubar Sócrates e ocupar-lhe o lugar. Sócrates acabou com esta iniciativa enquanto foi secretário-geral, a qual era organizada pelo Seguro. Estará aqui a origem da vingança? Terá sido essa decisão a natural consequência de Sócrates não querer Seguro no seu círculo próximo, provavelmente por não confiar nele pelas razões que o futuro agora passado se encarregou de exibir? Será que a interrupção desta iniciativa teria ficado sem consequências caso Sócrates tivesse levado Seguro para o Governo ou o tratasse como o príncipe que ele se imaginava? Si non è vero è ben trovato, pois a ambicionada presença de Seguro à frente do PS e a inépcia da sua estratégia com líder da oposição são um verdadeiro enigma – e estamos mesmo perante uma ignomínia pelo seu apagamento da história de como a direita provocou uma crise política para trazer a troika e assim ganhar as eleições e ficar com carta branca para os negócios à custa do Estado Social.

Este evento reúne figuras da política activa e teorizada, destinando-se a uma audiência presencial de 110 jovens militantes socialistas. Acreditando na imprensa, os carolas mandantes elaboraram uma bibliografia que inclui tudo e mais alguma coisa, não faltando obras que nem após vários anos de estudo consecutivo se podem considerar assimiladas: A Política, de Aristóteles; Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels; Teoria Geral da Política, de Norberto Bobbio; A Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos, Benjamin Constant; Ensaios Morais, Políticos e Literários, David Hume; Da Democracia na América, Alexis de Tocqueville; A Política como Profissão, Max Weber. Há muito, muito e muito mais na listagem, coisas incríveis e espantosas. Pelos vistos, a lógica é a de que os neófitos cheguem à Universidade de Verão com esta papelada toda lida para poderem opinar ou, quiçá, meramente entender o que vão ouvir. E não pensem que vão escapar ao rigoroso escrutínio do TPC, pois o programa vai distribuir a rapaziada por três salas após cada painel. Isso vai dar 30 e tal galfarros por cada “Reunião de Turma”, os quais terão 60 minutos para chegarem ao local devidamente reciclados de líquidos e nicotina, após o que terão de conseguir sentar-se, acalmar e calar, e ainda não descurando que terão de chegar a horas ao encerramento do painel para não atrasar o programa das festas. Tudo somado e subtraído, ficam à volta de 15 minutos para gastar na discussão colectiva a respeito dos grandes pilares da civilização ocidental e o rumo ao socialismo.

O que mais me surpreendeu, porém, não foi a logística provinciana e sonsa do evento, antes uma certa ausência e uma certa presença. A ausência é a de Carrilho, o malogrado candidato à direcção do Laboratório de Ideias a convite de Seguro. Na altura, Carrilho, com a sua frontalidade e honestidade exemplares, explicou que recusava porque não tinha tempo tamanho era o trabalho que havia para fazer na docência e na indecência (os desvairados artigos a pedir a cabeça de Sócrates que continua a escrever a cada duas semanas). Ora, não seria a Universidade de Verão do PS o local por excelência para revelar aos meninos as monstruosidades do anterior secretário-geral? Estou banzo com o desperdício da ocasião. Quanto à presença, o Adelino Maltez. Temos primeiro de enquadrar a cena:


Álvaro Beleza, secretário nacional do PS e um dos organizadores do evento, sublinha o facto de o partido ter apostado em personalidades independentes para abrilhantar os debates: “Os partidos têm de se abrir à sociedade, ser capazes de atrair os melhores. É um dos lemas de António José Seguro”, explica ao Expresso.

Adelino Maltez, portanto, representará a abertura dos partidos à sociedade, o que faz do simpático Adelino um representante de uma certa sociedade à qual este partido se quer abrir. Até aqui, continuamos a sorrir de mãos dadas. O pior é quando começamos a ler qualquer texto – qualquer texto sem excepção – do homem e descobrimos antes de chegarmos ao terceiro parágrafo que o seu mundo não é deste Mundo. O que ali está é a facúndia gongórica de um romantismo nostálgico, o qual por necessário acaso se serve dos conteúdos da História, da Filosofia e da Política para ir entretecendo as angústias e as desilusões enquanto Ulisses não volta. Nada contra, bem pelo contrário, que a literatura fantástica tem o seu lugar na engenharia da felicidade. Mas se a ideia for a de ficar à espera de ouvir daquela cabeça alguma pista para lidarmos com o presente, então mais vale esperarmos pelo discreto e silencioso Godot.

Deixemos os assuntos difíceis. Por mim, tudo estará bem se acabar bem. E isso quer dizer: acabar com Seguro, no seu discurso de encerramento, a contar aos discentes em que águas de bacalhau está esquecido o prometido Código de Ética com que vai ensinar aos sócraticos o que é higiene e limpeza, quais são afinal os seus prometidos remédios para o desemprego e onde está guardado o prometido plano para o crescimento da economia. Não sei bem, porque sou um bocado lerdo, mas diria que uma Universidade do maior partido da oposição, de Inverno ou de Verão, deve conseguir produzir este tipo de conhecimento. Pelo menos, este. Principalmente, este. Urgentemente, este.

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