sexta-feira, 1 de junho de 2012

Canção cruel

Jorge de Sena




Corpo de ânsia.

Eu sonhei que te prostava,

E te enleava

Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,

Eu sonhei que em vós bebia

Melancolia

De há séculos!

Boca sôfrega,

Rosa brava

Eu sonhei que te esfolhava

Petala a pétala!

Seios rígidos,

Eu sonhei que vos mordia

Até que sentia

Vómitos!

Ventre de mármore,

Eu sonhei que te sugava,

E esgotava

Como a um cálice!

Pernas de estátua,

Eu sonhei que vos abria,

Na fantasia,

Como pórticos!

Pés de sílfide,

Eu sonhei que vos queimava

Na lava

Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,

Flor de volúpia sem lei!

Não te apagues, sonho! mata-me

Como eu sonhei.

1 comentário:

  1. já conhecia, mas soube-me bem ler de novo e lembrei-me desta de Camões que Sena tão bem conhecia

    ..."Agora, às costas escapando a vida,
    Que dum fio pendia tão delgado.
    Que não menos milagre foi salvar-se
    Que pena o Rei judaico acrescentar-se"

    (...)

    ResponderEliminar