
Militantes e simpatizantes do PS terão razões, algumas excelentes, para estarem satisfeitos com o congresso de Braga. Militantes e simpatizantes da democracia, ao invés, ficam ainda mais preocupados do que já estavam.
Seguro escolheu a via do ostracismo para lidar com a herança de Sócrates no partido. Os 7 anos de liderança e governação foram varridos para debaixo do tapete. Duas consequências fatais: (i) a história da subida da direita ao poder, e o papel do Presidente da República nesse processo, entram igualmente no esquecimento; (ii) ainda não foi desta que ficámos a saber quais terão sido os terríveis erros da anterior direcção socialista, e adensa-se a suspeita de que a intenção é nunca os identificar para não correr o risco de aparecer alguém a querer discutir os critérios, e a desmontar as prováveis falácias, na sua escolha.
Seguro começa o seu ciclo e anuncia um tempo novo, imaculado, esterilizado. Ele tem o mapa para a Terra Prometida onde o PS ficará isento de pecado. Este culto da higiene – que também explica a perseguição aos seus camaradas declarados por atacado suspeitos de corrupção e obrigados a assinar papéis inquisitoriais – deu finalmente a chave para se decifrar a sua postura enquanto opositor de Sócrates. Não se tratava de um conflito de políticas, uma discórdia ideológica, um antagonismo intelectual. Tratava-se de uma repulsa moral, uma aversão pessoal que tinha de ser escondida e mascarada de alternativa salvífica. Por isso Seguro utilizou sempre o silêncio como amplificador das suas mensagens corrosivas, nada tendo para discutir, sequer com que contribuir. Ele sabia-se no topo da lista dos sucessores, seria o próximo Secretário-Geral de um PS caído em desgraça. Seguro era aquele que não se tinha deixado contaminar, o rosto da resistência à opressão. Quão mais rapidamente Sócrates fosse abatido, mais rapidamente estaria a fazer visitas à comunicação social para descobrir o que ela realmente faz, um enigma que o atormentava, e a aproveitar para contar histórias de senhoras sofridas que lhe foram pedir ajuda, coitadinhas.
Seguro junta-se a Cavaco e Passos na prática de uma sonsice verdadeiramente obscena de tão óbvia. Espero que o velho passado do PS, em nome das pessoas livres e corajosas que abominam os sonsos, se livre rapidamente deste novo futuro.
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