sábado, 3 de setembro de 2011

Anjos Mulheres - VI

Maria Teresa Horta




As mulheres voam
como os anjos
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória


Disponiveis
para voar


soltas...


Primeiro
lentamente uma por uma


Depois,
iguais aos passaros


fundas...


Nadando,
juntas



Secreta a rasar o
chão


a rasar a fenda
da lua


no menstruo
por entre a fenda das pernas



Às vezes é o aço
que se prende
na luz


A dobrarmos o espaço?



Bruxas
pomos asas em vassouras
de vento


E voamos



Como as asas
lhe cresciam nas coxas


diziam dela
que era um anjo do mar



Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas


perseguindo,


pelos espaços,
lunares
da menstruação


e corpo desavindo



Não somos violencia
mas o voo


quando nadamos
de costas pelo vento


até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz



Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras


pelo tacto?



Somos os anjos
do destino


com a alma
pelo avesso
do utero



Voamos a lua
menstruadas


Os homens gritam
- são as bruxas


As mulheres pensam
- são os anjos


As crianças dizem
- são as fadas



Fadas?


filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina



Nadamos?


De costas,
no espaço deste século



Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo


portas por trás
dobradas pelos rins


Abrindo o ar
com o corpo num só golpe


Soltas,
viando
até chegar ao fim



Dizem-nos
que nos limitemos ao espaço


Mas nós voamos
também
debaixo de água



Nós somos os anjos
deste tempo


Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...


Temos um pacto
com aquilo que
voa


- as aves
da poesia


- os anjos
do sexo


- o orgasmo
dos sonhos


Não há nada
que a nossa voz não abra



Nós somos as bruxas da palavra





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