
Paulo Moreira Leite
Época
Oito anos depois de chegar ao Planalto, num ambiente de incertezas e tumulto, com a inflação em 12% e perspectivas complicadas de crescimento, vítima de terrorismo econômico nos últimos meses de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o governo.
Leva para casa uma popularidade histórica. Elegeu uma sucessora pela qual os adversários e mesmo determinados aliados não apostavam um Real furado. O desemprego se encontra num de seus patamares mais baixos de qualquer época e a concentração de renda diminuiu como poucas vezes se viu.
Chega a ser uma injustiça pedante questionar o papel de Lula sobre as realizações de seu próprio mandato, num esforço para transformar FHC no grande herói do governo Lula, num exótico exercício de futurologia do passado.
Conforme este ponto de vista, Lula seria responsável por tudo de ruim que ocorreu nos últimos a 8 anos, enquanto FHC teria direito aos louros de tudo o que ocorreu de bom.
Reconheço méritos importantes no governo FHC mas essa visão é irracional, lembra um conto de fadas e seu pressuposto é um truque retórico.
Apenas para efeito de raciocínio, vamos imaginar que Lula encerrasse o governo com a popularidade baixa, o desemprego em alta, a inflação nos mesmos 12% de 2002.
Alguém acredita que os avalistas tucanos de hoje iriam bater no peito e dizer: “gente… temos de admitir que o Lula é incapaz até de errar e tudo de ruim é culpa de FHC…”?
Durante a última campanha presidencial, o candidato José Serra advertiu o eleitorado, diversas vezes, que ninguém governa na garupa. Serra tinha razão.
Nenhum presidente assume o país como se o gabinete presidencial fosse o manche de um piloto automático, no qual a única preocupação é seguir rotas e mapas já conhecidos para evitar áreas de turbulência e fugir de acidentes graves. O ato de governar implica em reiniciar ações de governo todas as manhãs, todos os dias, ao longo de todo o mandato. A originalidade consiste em enfrentar dificuldades novas e inesperadas, para as quais os melhores intelectuais não tem resposta consagrada, diante das quais os assessores também se revelam inseguros e divididos.
Dirigir um governo também envolve enfrentar pressões específicas, livrar-se de aliados incômodos e prejudiciais, rejeitar idéias erradas, encaminhar proposições corretas, empenhar-se a favor de soluções que mais tarde podem se mostrar adequadas para o país — embora quase ninguém seja capaz de enxergar isso no momento em que é preciso brigar por elas.
Em resumo: um governo não herda o texto da peça de seu antecessor e, com pequenos arranjos aqui e ali, vai tocando a obra até o fim do mandato. Cada presidente é protagonista de seu próprio drama, responsável por seus acertos e seus erros.
A presidencia da República não é um concurso de originalidade nem cobra direitos autorais — até porque os erros e acertos dos governantes, os avanços e recuos de um país não são peças de literatura nem romance de ficção, mas integram a vida e a história do próprio povo, que sempre paga a conta.
Desse ponto de vista Lula foi um presidente bem sucedido.
É certo que, de modo lamentável, ele decepcionou eleitores que enxergavam o PT e seu governo como uma esperança de renovação ética. (Neste aspecto, nivelou-se de forma chocante aos piores costumes políticos nacionais). Demonstrou uma incompetência exagerada para melhorar a saúde pública e deixa uma herança pífia num terreno essencial como educação. (Também aqui, os antecessores não fizeram coisa muito melhor). Embora tenha cortado pela metade os juros dos tempos de FHC, eu acho que seu governo poderia ter promovido cortes ainda maiores. Os investimentos em infraestrutura tiveram um impulso importante em seu governo, mas andaram muito mais devagar do que seria necessário e desejável.
Mas o governo Lula cumpriu uma função histórica necessária. Num país que foi um dos últimos a abolir o trabalho escravo, no qual uma parcela pouco maior de 1% da população tem acesso a quase metade da renda nacional, seu governo ajudou a tornar os brasileiros menos desiguais.
Este é o significado profundo da entrada de milhões de novos consumidores no mercado, da redução da base de miseráveis, da queda na desigualdade entre as regiões, do crescimento da classe C.
Não dá para imaginar que a desigualdade foi derrubada como um fruto espontaneo e exclusivo do crescimento econômico, que poderia ter ocorrido em qualquer governo, em qualquer situação. Em boa medida ocorreu uma intervenção do Estado, com medidas práticas e ações definidas, em função de uma política de governo diferenciada.
Para além das considerações de natureza social e econômica, essa diminuição da desigualdade envolve uma questão de caráter ético.
O brasileiro pobre, que não teve direito a uma escola boa, nem conseguiu um emprego capaz de pagar por suas necessidades básicas, e sempre foi tratado como subalterno pelas camadas superiores da sociedade, sente-se menos desprezado, mais autonomo, mais cioso de seus direitos e possibilidades.
Identifica-se com Lula, que lhe mostrou – com os erros de português, as metáforas de futebol e outros traços tão criticados pelos campeões de boas maneiras — que não precisava ter vergonha da própria condição.
O modo Lula de governar costuma ser definido, em grande medida corretamente, como herança populista. Não custa lembrar, porém, que vivemos num país onde a postura elitista sempre fez parte dos exercícios de dominação.
A igualdade elementar entre cidadãos, que ainda não foi alcançada mas se tornou um pouquinho menos distante, é uma das bases indispensáveis da cidadania. Essa é o principal valor deixado pelo governo Lula.
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