domingo, 26 de dezembro de 2010

O soldado - Alexandre Herculano


Veia tranquila e pura
De meu paterno rio,
Dos campos, que ele rega,
Mansíssimo armentio.

Rocio matutino,
Prados tão deleitosos,
Vales, que assombravam selvas
De sinceirais frondosos,

Terra da minha infância,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardinzinho,
Minhas pendidas flores,

Harmonioso e santo
Sino do presbitério,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemitério,

Onde os avós dormiram,
E dormirão os pais;
Onde eu talvez não durma,
Nem reze, talvez, mais,

Eu vos saúdo!, e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando. E quanto pode
Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas
Dos mares procelosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.

Na proa ressonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ansioso
O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura
Quando é tranquilo o mar;
Quando da pátria o céu
Céu puro vem lembrar;

Quando, no extremo ocaso,
A nuvem vaporosa,
À frouxa luz da tarde,
Na cor imita a rosa;

Quando, do Sol vermelho
O disco ardente cresce,
E paira sobre as águas,
E enfim desaparece;

Quando no mar se estende
Manto de negro dó;
Quando, ao quebrar do vento,
Noite e silêncio é só;

Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rápida ardentia
Em torno a sombra aclara.

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