sexta-feira, 20 de agosto de 2010

No obscuro desejo - Vasco Graça Moura


no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

[ in " Antologia dos Sessenta Anos " ]

1 comentário:

  1. Olá António!
    Gosto muito das poesias de Vasco Graça Moura, principalmente esse:

    Princípio do prazer

    à sua volta os pombos cor de lava
    nos arabescos pretos do basalto
    e gente, muita gente que passava
    e se detinha a olhá-la em sobressalto

    no seu olhar havia uma promessa
    nos seus quadris dançava um desafio
    num relance de barco mas sem pressa
    que fosse ao sol-poente pelo rio

    trazia nos cabelos um perfume
    a derramar-se em praias de alabastro
    e um brilho mais sombrio quase lume
    de fogo-fátuo a coroar um mastro

    seu porte altivo punha à vista o puro
    princípio do prazer que caminhava
    carnal e nobre e lúcido e seguro
    com qualquer coisa de uma orquídea brava

    e nas ruas da baixa pombalina
    sua blusa encarnada era a bandeira
    e o grito da revolta na retina
    de quem fosse atrás dela a vida inteira.

    Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
    Bjs e bom final de semana.

    ResponderEliminar