por Gisele Teixeira, no Blog do Noblat

Esta será minha primeira Copa do Mundo fora do Brasil. E justamente na Argentina, nossa arquiinimiga no futebol. Aproveitei o final de semana para pendurar a bandeira verde e amarela na sacada e estou tricotando uma manta com as nossas cores, para usar quando for assistir a algum jogo em uma casa “celeste y blanca”.
No entanto tenho que confessar uma coisa: vou torcer pela Argentina quando o time não estiver no mesmo grupo que o Brasil. Pronto, falei! Mas antes que alguém me crucifique, ressalto que será somente quando a nossa equipe não estiver em campo. Uma espécie de Plano B.
E não é nem pelo país, e sim porque adoro o Maradona. Não chego a fazer parte da Igreja Maradoniana (Santificados sean tus goles, venga a nosotros tus pases), é claro. Mas admiro esse jeito que ele tem de viver se reinventando, de dizer o que pensa, de provocar polêmica e, ao mesmo tempo, também fascínio por qualquer lugar que passe.
Mesmo com um passado de drogado, bêbado, encrenqueiro, infiel, mal técnico, sonegador de impostos e falastrão.
Além de ter magnetismo, Maradona é muito divertido. Uma espiada no livro “Dijo Diego”, que recopila as 1.000 melhores frases do futebolista, é garantia de risadas por horas.
Para completar, parece que é amigo do homem lá de cima, a quem chama, afetuosamente, de “El Barba”. Outros, no entanto, sustentam que Maradona é o próprio Deus. “Son dos y son uno”, dizem por aí.
A Argentina não vence uma Copa do Mundo há 24 anos - mesmo tempo de jejum que o Brasil amargou antes de levantar o tetracampeonato em 1994, nos Estados Unidos. E se classificou para a Mundial apenas na última rodada das eliminatórias.
Mas há esperanças por aqui. No final de semana um taxista passou o trajeto inteiro tentando me provar que a seleção nacional tem 85,3% de chances de trazer a taça.
De onde saiu esse índice, perguntei? Uma soma de gols, com os títulos de 1978 e 1986, mais o preço atual dos jogadores, dividido por não sei quanto, acrescentado ao auxilio de Maradona e Messi, o atual melhor jogador do planeta e craque do Barcelona, da Espanha.
Segundo pesquisa feita recentemente pelo Clarín, para 23% dos argentinos Maradona é o personagem público que mais os representa.
Os músicos que o digam. O goleador já foi inspiração para Los Piojos (Maradó, Maradó), Fito Paez (Y dale alegría a mi corazón), Mano Negra (Santa Maradona), Andrés Calamaro (Maradona), Charly García (Maradona blues) e Las Pastillas del Abuelo (¿Qué es Dios?), entre outros. Sem falar, é claro, na famosa La Mano de Dios, de Rodrigo. E também para o cineasta Emir Kusturica, que estava iluminado quando fez o documentário Maradona.
Nem por isso o ex-jogador é unanimidade. O jornalista Juan Pablo Meneses escreveu recentemente em seu blog “Cronicas Argentinas” um parágrafo que achei genial.
“Maradona es el último Perón. A Maradona se le ama o se le odia. Se le justifica todo o se le ataca por cualquier cosa. Hay anti y pro Maradona. Hay infinitas corrientes del maradonismo: Está el maradonismo ortodoxo, el maradonismo de los 70, el maradonismo por conveniencia, el maradonismo pragmático, el maradonismo purista y el maradonismo verdadero”.
E é assim mesmo.
Torço por Maradona porque ele é um especialista em renascer. Há seis anos estava à beira da morte. Recuperou-se e virou apresentador de televisão (seu programa recebeu Pelé na estréia, Fidel Castro no meio, e Mike Tyson no final). Depois, teve nova recaída, bem grave, e nova recuperação.
Exatamente como a Argentina.
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